O
tratamento cirúrgico para a obesidade mórbida, não é inócuo,
apresenta risco de vida (menor que 0,5%), dificuldades de
adaptação as mudanças realizadas no aparelho digestivo. Cerca
de 3% dos operados poderão apresentar problemas tardios como:
deslocamento do anel (quando a técnica utilizada o coloca),
diarréias crônicas, desnutrição; problemas estes que necessitam,
por vezes, de nova cirurgia. Além disto, um pequeno grupo
de operados pode apresentar perda de peso bem abaixo do esperado.
Portanto o procedimento cirúrgico deve ser bem avaliado. A
participação nas reuniões para candidatos a cirurgia é indispensável,
assim como uma avaliação psicológica. Procure estar ciente
de tudo antes de se operar, leve um familiar próximo às
consultas e reuniões; para que este esteja também ciente das
mudanças, dificuldades e riscos, que a sua cirurgia pode ocasionar.
Uma vez
operado, siga a risca todas as instruções da equipe
médica
com relação a dieta, retornos, exames etc. Não acredite na
informação de terceiros, procure sempre a orientação da equipe
médica. Freqüente as reuniões
para os já operados, onde terá informações de como comer:
alimentos necessários para que não fique desnutrido, ou com
anemia etc.
Porque o Paciente obeso é encaminhado para avaliação psicológica, antes da cirurgia?
A Obesidade, longe de ser uma “fraqueza de caráter” é uma doença que afeta a pessoa nos seus aspectos físico, psíquico e social. É considerada uma condição clínica multi-determinada, na qual se associam diversas causas, no processo do seu desenvolvimento. Dentre estas causas, com muita freqüência, apresentam-se os fatores psicológicos ou emocionais.
Em se tratando de pacientes obesos mórbidos, podemos afirmar
que a maioria dos que chegam à Cirurgia Bariátrica traz alterações
emocionais. Essas dificuldades de natureza psicológica podem
estar presentes entre os fatores determinantes da obesidade
exógena (reativa), ou entre as conseqüências, na obesidade
endógena ou de desenvolvimento em que a pessoa apresenta excesso
de peso desde o começo da vida e tende a vivenciar e a confundir
os mais variados desejos com necessidade de alimento. Seu
emocional é abalado pelas dificuldades, limitações e sofrimento
por ser obeso.
Sendo assim, como comprovam vários estudos realizados, a avaliação
e o trabalho psicológico pré e pós-operatório são de fundamental
importância. Muitos pacientes resistem ao atendimento psicológico
na etapa pré-cirúrgica, alegando não ter necessidade, pois
já estão decididos: querem submeter-se à cirurgia da obesidade.
O atendimento psicológico não visa a convencer ninguém a fazer
a gastroplastia e sim preparar essa pessoa, para que possa
passar pelo processo cirúrgico e, conseqüentemente, de emagrecimento,
de forma saudável e tranqüila. Outra grande preocupação do
paciente em relação à avaliação psicológica é o temor de ser
“barrado” ou impedido pelo psicólogo da realização de seu
grande desejo: submeter-se à cirurgia. Na verdade, não é esse
o papel que nos cabe. Nosso objetivo é preparar adequadamente
o paciente, pelo tempo que ele necessitar se preciso for.
Em caso de distúrbios psiquiátricos, solicitamos acompanhamento
do psiquiatra para complementar o trabalho.
Assim,
o contato com o psicólogo se faz importante para a orientação,
informação e apoio desse paciente na sua preparação para a
cirurgia. O período imediatamente após a cirurgia é relatado
pelos operados como sendo um dos mais difíceis. É a fase de
recuperação do ato cirúrgico, de maior desconforto e de adaptação
à dieta líquida. Junta-se a tudo isso a expectativa, a ansiedade
e a insegurança: “Será que deu mesmo tudo certo?”.
Vencido o 1º período (da ingestão apenas de líquidos), a adaptação ao alimento sólido é a outra etapa.
Neste período pós-cirúrgico, o acompanhamento psicológico é voltado geralmente para a adaptação aos novos hábitos. É, sem dúvida, esse tipo de questionamento que nos traz o paciente em suas consultas. Após o 3º ou 4º mês de cirurgia, o paciente entra em nova fase: a da “lua de mel” com a cirurgia. O emagrecimento começa a ser notado por todos, os elogios tornam-se constantes, as roupas estão cada vez mais largas, há aumento da disposição e do bem estar e o paciente passa a ter maiores cuidados com sua aparência, investindo mais em si mesmo. Após 6 ou 8 meses, a perda de peso está em torno de 30 %. Tudo é novidade! Neste momento, o paciente operado não sente a menor necessidade de uma psicoterapia. É nesse período que muitos desaparecem dos consultórios dos psicólogos (e muitas vezes dos retornos médicos!). Sentem-se tão bem, como nunca estiveram na vida: auto-suficientes, mais seguros e com a auto-estima elevada, bonitos e muitas vezes eufóricos. Contudo nesse momento a psicoterapia volta-se para a nova imagem corporal e para as repercussões que ocorrerão a partir daí na personalidade do indivíduo.
O corpo que o paciente obeso “não via”, não entrava em contato, passa a ser alvo de observações e elogios. Algumas dificuldades emocionais que estavam encobertas pela “capa de gordura” tendem a surgir. Conflitos básicos emergem e, se não forem tratados, podem fazer com que o paciente lance mão de “boicotes” ao emagrecimento como forma de evitar sofrimento. Passa, por exemplo, a ingerir grandes quantidades (divididas em pequenas porções) de alimentos pastosos com alto teor calórico, dificultando sua perda de peso ou mesmo recuperando alguns quilos. Nesta fase, grandes mudanças estão ocorrendo e uma multiplicidade de opções se abre à frente da pessoa emagrecida e isso requer nova aprendizagem social. Assumir responsabilidades das quais era poupado por falta de condições físicas e pelas limitações que a obesidade impunha, agora colocam a pessoa diante de situações nunca vividas ou vividas há muito tempo. A obesidade, de uma certa forma, protegia. Em torno de um ano após a cirurgia, o peso do paciente operado se estabiliza. Tudo aquilo que era novidade passou a fazer parte da rotina de vida. Algumas vezes a depressão se instala. O objetivo foi alcançado: “Deixei de ser obesa, mas apesar de magra, continuo sozinha, tenho problemas no trabalho, nos relacionamentos…”.
Estudos realizados mostram que deixar de ser obeso implicará em mudanças na maneira de agir e na vida como um todo. E, ao reorganizar-se e estruturar-se novamente, freqüentemente a pessoa emagrecida necessita de ajuda.
O trabalho psicológico pode auxiliar o paciente a conhecer e a compreender melhor a si mesmo, a aderir de forma mais eficiente ao tratamento, envolvendo-o e tornando-o responsável pela vivência de criação de uma nova identidade e estimulando a sua participação efetiva no processo de emagrecimento. A cirurgia é apenas o começo.
Psicólogos do Instituto: Aída Regina Marcondes Franques